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sábado, 21 fev 2026

Quando, de repente, “tudo está bem” em um cartão-diário.

Os cartões-diário, como sabemos, são ferramentas centrais na RO DBT para monitorar alvos de sinalização social e acompanhar o progresso ao longo do tratamento. Eles nos ajudam a identificar padrões, mapear comportamentos e escolher onde intervir. Justamente por isso, quando um cliente apresenta um cartão completamente “vazio”, sem qualquer comportamento de sinalização social maladaptativo registrado, é importante resistir ao impulso imediato de celebrar.

Na RO DBT, a ausência de alvo também pode ser um sinal social.

É claro que é possível que o cliente tenha tido uma semana genuinamente positiva. Isso acontece. No entanto, se o padrão se repete, semana após semana, sem qualquer material relevante para análise de cadeia, vale a pena fazer uma pausa clínica e perguntar a si mesmo: o que meu cliente está tentando me comunicar ao não comunicar nada?

Quando nos vemos repetidamente lutando para identificar um alvo de sinalização social, o primeiro movimento recomendado não é intensificar a busca por falhas do cliente. O primeiro movimento é olhar para a própria estrutura do tratamento. Talvez os alvos escolhidos não estejam alinhados aos principais déficits de sinalização social que mantêm esse cliente fora da “tribo”. Talvez estejamos investigando no lugar errado.

Aqui entra uma das práticas mais exigentes da RO DBT: abertura radical por parte do terapeuta.

Isso implica assumir, explicitamente, que encontrar alvos relevantes é nossa responsabilidade profissional. Ainda que o trabalho seja colaborativo, a condução clínica é nossa. Ao compartilhar essa autorreflexão com o cliente, é fundamental bloquear ativamente qualquer tentativa dele de nos tranquilizar, minimizar a situação ou assumir a culpa. Um simples gesto como levantar a mão com a palma voltada para frente acompanhado da frase: “Pare. Este não é seu trabalho. É meu. Mas agradeço sua disposição de ajudar”, comunica algo poderoso. O sorriso caloroso que acompanha essa intervenção sinaliza segurança, não ameaça.

Curiosamente, quanto mais o cliente tenta desviar desse momento, mais provável é que algo relevante esteja sendo evitado.

Assumir responsabilidade, nesse contexto, não significa admitir erro ou fragilidade clínica. Significa modelar exatamente o que ensinamos: disposição para autoexame, humildade social e flexibilidade. Quando fazemos isso sem colapsar emocionalmente e sem culpar o cliente, transmitimos uma mensagem implícita de cuidado, igualdade e respeito. Estamos dizendo, na prática, que não pediremos ao cliente aquilo que não estamos dispostos a fazer.

Depois de sinalizar essa disposição genuína para o autoexame, a postura dialética pede uma mudança de polaridade. Entramos na irreverência lúdica. Em vez de recusar ajuda, passamos a solicitá-la de maneira leve: “Sabe de uma coisa? Pensando melhor, acho que realmente poderia usar sua ajuda nisso.” Um sorriso discreto e uma leve piscadela funcionam como provocação terapêutica: comunicam que não estamos abalados por não sermos perfeitos e, ao mesmo tempo, insinuam que talvez haja algo acontecendo nos bastidores que ainda não foi trazido à luz.

Esse movimento cria um equilíbrio delicado entre confiança e curiosidade. A postura transmite algo como: “Eu confio em você. Acredito na sua competência. Dou-lhe o benefício da dúvida.” Contudo, essa confiança não é ingênua. Ela contém uma dose saudável de ceticismo clínico — uma provocação sutil que pode mobilizar abertura.

Muitas vezes, essa estratégia funciona como uma forma de “indução terapêutica de culpa” no melhor sentido do termo. Se o cliente está sendo sincero, ele se sentirá validado pela confiança e tenderá a aprofundar sua autorrevelação. Se, por outro lado, estiver ocultando algo, a experiência de receber confiança imerecida pode gerar desconforto suficiente para enfraquecer antigos padrões de esquiva ou culpabilização externa.

De modo geral, mantemos uma postura de confiança até que surjam evidências concretas de que ela não se sustenta. Se houver dados objetivos que indiquem inconsistências, nomeamos o que sabemos e incentivamos uma exposição mais sincera. Se o cliente aumenta sua transparência, reforçamos imediatamente essa abertura: “Uau. Obrigado por me contar.” E podemos acrescentar, com serenidade: “Eu imaginava que algo assim pudesse estar acontecendo, mas quis esperar para ver se você traria isso.” A pergunta que segue: “Como você se sente agora que disse isso?” amplia o espaço para reflexão.

Por outro lado, se após nossa postura de responsabilidade e confiança o cliente se mostra menos engajado ou passa a nos culpar, isso pode sinalizar uma ruptura na aliança. Nesse caso, o foco deixa de ser a busca por alvos comportamentais e passa a ser a reparação do vínculo terapêutico.

No fim das contas, um cartão-diário zerado nunca é apenas um cartão-diário zerado. Ele pode representar melhora real ou pode representar estar em mente fixa. O trabalho do terapeuta em RO DBT não é escolher a interpretação mais confortável, mas manter-se curioso o suficiente para investigar.

Porque, em supercontrole, o silêncio raramente é neutro.

Seção:
Juliana Massapust
Juliana Massapusthttps://caaesm.com.br/
Doutora em Neurociências pela UFF. Psicóloga pela UFRJ. Certificação em Terapia Comportamental Dialética (Behavioral Tech) e em Terapia Comportamental Dialética Radicalmente Aberta (Radically Open) e Treinamento de Habilidades em DBT (Vincular). Gestora da RO DBT Brasil. Aperfeiçoamento em Terapias Contextuais, Formação em Terapias Contextuais, em Transtornos Alimentares e Obesidade e Terapia Cognitivo Sexual.

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